Eu sei, eu sei... abandonei o Blog... mas agora estrou de volta e prometo atualizar sempre esse espaço... aliás, resolvi contar aqui algumas das minhas experiências como jornalista... espero que os visitantes tenham paciência para ler as histórias e se divirtam com os apuros e lições que eu já passei ao longo dos meus 21 anos de profissão... um abraço a todos !!!
Você já experimentou o que chamam de “sensação de impotência” diante de um fato ou de uma determinada situação? Pois é, foi exatamente isso que aconteceu comigo na última sexta-feira. E olha que eu estava feliz. Tinha ido ao aeroporto buscar minha mãe que chegava de São Paulo. Atraso previsto de quarenta minutos para o desembarque, uma voltinha pelas lojas com a esposa, uma parada para um cappuccino com uma boa prosa e tudo correndo conforme se espera.
A coisa complicou quando chegamos ao retorno para Salvador, ali na entrada de Lauro de Freitas. O trânsito das cinco da tarde parecia muito pior. Andávamos lentamente. Achei que tivesse a ver com a saída do fim de semana, mas nem imaginava o tamanho da confusão. Levei uma hora prá dar a volta. E aí você começa a ver as barbaridades... Vários carros começaram a subir pelo canteiro central, evitando o retorno e tentando ganhar tempo. Fiquei irritado. Se eu dei a volta, como convém a quem respeita as leis de trânsito, porque deixaria um oportunista vindo de cima de um jardim entrar na minha frente? Nada feito. E o pessoal dos carros começou a me olhar feio. Vai entender...
Mas nada está tão ruim que não possa piorar... E foi o que aconteceu. Perdi mais uma hora para percorrer talvez menos de um quilômetro. Como eu estava de bom humor (ainda), procurei abstrair e curtir a conversa no carro. Mas acho que eu era o único. Começou o buzinaço (como se adiantasse alguma coisa) e dali a pouco um show de horrores que incluíram xingamentos, tensão e gente ao meu lado perguntando do aeroporto... Soube depois que trezentas pessoas perderam seus vôos por causa do congestionamento. Estava na cara.
Ninguém se movia. Desliguei o carro e desci. A cena parecia filme de terror. Aquele amontoado de veículos travados em plena avenida. Lembra da sensação de impotência... Pois é... Ela chegou. Lembrei da minha “previsão” de que um dia o trânsito ia parar de vez. E não é que parou mesmo? Duas senhoras passaram a pé, rindo. “Esse pessoal não chega em casa hoje”. Liguei o rádio prá descobrir alguma coisa, mas as informações também não existiam. Alguns ouvintes estavam falando ao vivo, reclamando da SET (ou da falta dela), lembrando a falta de organização e as horas perdidas. Mais uma hora num ritmo de “anda meio metro pára cinco minutos” e dei de cara com cinco ônibus que, em fila dupla, faziam o retorno no início da Paralela e ocupavam duas pistas. Só passava um carro por vez. Nenhum fiscal, moto ou veículo oficial capaz de orientar os motoristas e regular a passagem dos ônibus. Algo tão simples e óbvio que me fez pensar seriamente nos responsáveis pelo setor na cidade. Inacreditável.
À minha frente, uma avenida absolutamente liberada. Três horas de congestionamento. Dez minutos prá chegar
Era mais um daqueles começos de noite de trânsito interrompido nas avenidas da cidade. Aliás, péssima idéia a minha de sair mais cedo do trabalho. Eu tenho uma tese de que, um dia, se nada for feito pelas autoridades competentes, nossas principais capitais entrarão em colapso e vão “travar” literalmente na chamada hora do rush de tanto carro nas ruas. E pode incluir Salvador na lista dessas capitais. Por minha conta.
Resolvi ligar o rádio pra tentar esquecer a loucura dos motoristas ao meu lado que buzinam e mudam de faixa loucamente em busca de alguns poucos metros de diferença à frente. Chega a notícia: um grande estúdio americano de desenhos animados vai fazer, pela primeira vez, um filme com uma princesa negra. E não é que nunca pensaram nisso? Ou será que pensaram e simplesmente resolveram descartar a idéia por sei lá que motivo? Afinal, até pouco mais de vinte anos princesa de desenho animado tinha perfil definido: cara de européia. Se bem que é preciso dizer que nos últimos tempos a globalização e a diversidade de espectadores fizeram surgir heroínas infantis de origens diferentes. Árabes, orientais, ameríndias. Faltava mesmo uma negra no rol de personagens que habitam o imaginário de meninas de todo o mundo e se transformam em bonecas, álbuns de figurinhas, estampas de roupas e tudo mais que possa gerar lucro para seus idealizadores e desespero para os pais, que não param de ouvir pedidos de “compra, compra”. Eu que o diga.
A batida leve no vidro me faz interromper os pensamentos. Uma menina, cinco ou seis anos no máximo, magrinha, suja e maltrapilha estende a mão. Ela tem a cor da nova princesa dos contos de fada que deve invadir as salas de cinema de todo o mundo em breve. Baixo o vidro do carro pra ouvir o que eu já sabia. Ela estava com fome e precisava de dinheiro. Mais três crianças na mesma condição abordavam outros motoristas. Na esquina, uma mulher observava o desempenho. Tinha ares de ser a responsável (melhor dizer irresponsável) pelo grupo.
Por segundos pensei em toda a desigualdade que salta aos nossos olhos todos os dias nas ruas. Na falta de uma política social e de educação que efetivamente mude o rumo da vida dessas pessoas. Uma situação que se arrasta há séculos com pouquíssimos avanços e serve apenas de tema de palanque nas campanhas políticas e páginas de estudos. A tal sociedade organizada e a maioria dos homens de bem apenas fecham os olhos, as portas e os vidros dos carros a essa realidade. Pra muitos, o melhor é nem tocar no assunto.
A buzina me traz de volta. O sinal havia aberto. Deixo com a menina um chocolate que estava no console do carro. Pelo retrovisor, vejo a pequena abrir o doce e dividir com os amigos de rua. Os pensamentos voltam. Será que ela tem, pelo menos, os sonhos que habitam o imaginário infantil? Quem sabe ela vai ouvir falar da tal princesinha negra do desenho, se identificar com a imagem e sonhar que um dia pode ser igual a ela. Viver uma aventura, encontrar um príncipe encantado e ser feliz. Mas no caso dessa pequena princesa abandonada, e de tantas outras que vivem mesmo é no mundo real, ao nosso lado, vai ser preciso encontrar primeiro a educação e a dignidade.
O roteiro está pronto. É preciso que os responsáveis escrevam o final da história.

De terça à sexta feira vamos "tomar um banho" de tecnologia... um grupo da Record Bahia (inclusive eu), vai participar da 17ª edição do Broadcast & Cable. Serão cerca de 10 mil visitantes. O sucesso da feira e a vinda de representantes de outros países reflete a ampliação do mercado nacional de broadcasting. Em função disso, a Broadcast & Cable 2008 terá uma área de exposição 20% maior que a do ano passado. Cento e trinta expositores apresentarão seus lançamentos e os de outras trezentas marcas. TV Digital !!! Aí vamos nós !!!


Dia 31 é o Dia de Fazer a Diferença. No Brasil, a Rede Record vai promover eventos em todo o país, inclusive na Bahia. A Praça Municipal vai receber shows e uma grande estrutura de atendimento ao cidadão, incluindo serviços de corte de cabelo, manicure, assistência jurídica, emissão de documentos e outros. Participar é fazer a diferença. Mas a gente pode (e deve) fazer a diferença todos os dias. Ajudando quem está ao nosso lado e que muitas vezes não merece nem nosso olhar. Em pequenas atitudes de preservação do meio ambiente, de respeito ao ser humano, de apoio à pessoas que , muitas vezes, precisam apenas de uma palavra. Vamos fazer a diferença... a hora é essa !!!
Muita gente tinha tomado a mesma decisão. Lá embaixo, uma vizinha me mostrou a jovem. Ela estava em pé na jardineira do apartamento, virada pra frente. A um passo de cair. Gesticulava com alguém que estava dentro. A mãe, provavelmente. Ela falava, sentava na beirada, levantava de novo, numa rotina nervosa e preocupante. Mais do que se jogar dali, eu achava mais perigoso mesmo ela escorregar e cair do décimo andar. A movimentação cresceu. A criançada do meu prédio fez uma espécie de “arquibancada” com as cadeiras da piscina. Trouxeram binóculo. Chegou a polícia, a rua foi fechada, os bombeiros vieram... A imprensa também resolveu registrar o fato. Fotógrafos, repórteres e cinegrafistas ocuparam a frente do edifício esperando o desfecho. O espetáculo havia se transformado na maior atração do dia. Aliás, na maior atração dos últimos tempos naquela avenida de classe média de um bairro tradicional da cidade.
E o que é que uma moça de classe média poderia estar fazendo na beira daquela jardineira em plena manhã de sábado? Eu não conhecia a família e não imaginava que motivo poderia ter levado a jovem a tomar decisão tão perigosa. Na calçada, uma mulher começou a rezar em voz alta. Pedia pra que tudo acabasse bem. Do lado dela, gente sorria da atitude. Ela não se abalou. Continuou demonstrando sua preocupação e seu amor pela jovem desconhecida. Talvez fosse isso o que faltava a ela, pensei. Talvez a todos nós. Vivemos uma crise inconsciente de amor. Amamos pouco. Amamos mal. Deixamos escapar oportunidades com nossos pais, com nossos filhos, com as pessoas com quem dividimos nossa vida, com nossos amigos. Oportunidades que não voltam e que podem deixar marcas negativas nas pessoas que poderiam ter recebido um beijo, um carinho, um “eu te amo”. E quando nos conscientizamos disso, quase sempre é tarde demais. Não conseguimos mais recuperar o que perdemos.
A mulher que orava foi embora. Duas horas depois a moça foi resgatada da janela pelos bombeiros. A criançada bateu palmas. Pouco depois ela foi levada pela ambulância para atendimento e a vida voltou ao normal na avenida de classe média naquele sábado. Nem quis saber do resultado do vôlei. Abracei minha família e conversei por muito tempo com as crianças sobre amor e respeito. Uma lição que, às vezes, a gente só lembra quando assiste a uma crise.
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