MENINOS E MENINAS

             Era mais um daqueles começos de noite de trânsito interrompido nas avenidas da cidade. Aliás, péssima idéia a minha de sair mais cedo do trabalho. Eu tenho uma tese de que, um dia, se nada for feito pelas autoridades competentes, nossas principais capitais entrarão em colapso e vão “travar” literalmente na chamada hora do rush de tanto carro nas ruas. E pode incluir Salvador na lista dessas capitais. Por minha conta.

            Resolvi ligar o rádio pra tentar esquecer a loucura dos motoristas ao meu lado que buzinam e mudam de faixa loucamente em busca de alguns poucos metros de diferença à frente. Chega a notícia: um grande estúdio americano de desenhos animados vai fazer, pela primeira vez, um filme com uma princesa negra. E não é que nunca pensaram nisso? Ou será que pensaram e simplesmente resolveram descartar a idéia por sei lá que motivo? Afinal, até pouco mais de vinte anos princesa de desenho animado tinha perfil definido: cara de européia. Se bem que é preciso dizer que nos últimos tempos a globalização e a diversidade de espectadores fizeram surgir heroínas infantis de origens diferentes. Árabes, orientais, ameríndias. Faltava mesmo uma negra no rol de personagens que habitam o imaginário de meninas de todo o mundo e se transformam em bonecas, álbuns de figurinhas, estampas de roupas e tudo mais que possa gerar lucro para seus idealizadores e desespero para os pais, que não param de ouvir pedidos de “compra, compra”. Eu que o diga.    

          A batida leve no vidro me faz interromper os pensamentos. Uma menina, cinco ou seis anos no máximo, magrinha, suja e maltrapilha estende a mão. Ela tem a cor da nova princesa dos contos de fada que deve invadir as salas de cinema de todo o mundo em breve. Baixo o vidro do carro pra ouvir o que eu já sabia. Ela estava com fome e precisava de dinheiro. Mais três crianças na mesma condição abordavam outros motoristas. Na esquina, uma mulher observava o desempenho. Tinha ares de ser a responsável (melhor dizer irresponsável) pelo grupo. 

          Por segundos pensei em toda a desigualdade que salta aos nossos olhos todos os dias nas ruas. Na falta de uma política social e de educação que efetivamente mude o rumo da vida dessas pessoas. Uma situação que se arrasta há séculos com pouquíssimos avanços e serve apenas de tema de palanque nas campanhas políticas e páginas de estudos. A tal sociedade organizada e a maioria dos homens de bem apenas fecham os olhos, as portas e os vidros dos carros a essa realidade. Pra muitos, o melhor é nem tocar no assunto.  

          A buzina me traz de volta. O sinal havia aberto. Deixo com a menina um chocolate que estava no console do carro. Pelo retrovisor, vejo a pequena abrir o doce e dividir com os amigos de rua. Os pensamentos voltam. Será que ela tem, pelo menos, os sonhos que habitam o imaginário infantil? Quem sabe ela vai ouvir falar da tal princesinha negra do desenho, se identificar com a imagem e sonhar que um dia pode ser igual a ela. Viver uma aventura, encontrar um príncipe encantado e ser feliz. Mas no caso dessa pequena princesa abandonada, e de tantas outras que vivem mesmo é no mundo real, ao nosso lado, vai ser preciso encontrar primeiro a educação e a dignidade.

           O roteiro está pronto. É preciso que os responsáveis escrevam o final da história.

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