Muita gente tinha tomado a mesma decisão. Lá embaixo, uma vizinha me mostrou a jovem. Ela estava em pé na jardineira do apartamento, virada pra frente. A um passo de cair. Gesticulava com alguém que estava dentro. A mãe, provavelmente. Ela falava, sentava na beirada, levantava de novo, numa rotina nervosa e preocupante. Mais do que se jogar dali, eu achava mais perigoso mesmo ela escorregar e cair do décimo andar. A movimentação cresceu. A criançada do meu prédio fez uma espécie de “arquibancada” com as cadeiras da piscina. Trouxeram binóculo. Chegou a polícia, a rua foi fechada, os bombeiros vieram... A imprensa também resolveu registrar o fato. Fotógrafos, repórteres e cinegrafistas ocuparam a frente do edifício esperando o desfecho. O espetáculo havia se transformado na maior atração do dia. Aliás, na maior atração dos últimos tempos naquela avenida de classe média de um bairro tradicional da cidade.
E o que é que uma moça de classe média poderia estar fazendo na beira daquela jardineira em plena manhã de sábado? Eu não conhecia a família e não imaginava que motivo poderia ter levado a jovem a tomar decisão tão perigosa. Na calçada, uma mulher começou a rezar em voz alta. Pedia pra que tudo acabasse bem. Do lado dela, gente sorria da atitude. Ela não se abalou. Continuou demonstrando sua preocupação e seu amor pela jovem desconhecida. Talvez fosse isso o que faltava a ela, pensei. Talvez a todos nós. Vivemos uma crise inconsciente de amor. Amamos pouco. Amamos mal. Deixamos escapar oportunidades com nossos pais, com nossos filhos, com as pessoas com quem dividimos nossa vida, com nossos amigos. Oportunidades que não voltam e que podem deixar marcas negativas nas pessoas que poderiam ter recebido um beijo, um carinho, um “eu te amo”. E quando nos conscientizamos disso, quase sempre é tarde demais. Não conseguimos mais recuperar o que perdemos.
A mulher que orava foi embora. Duas horas depois a moça foi resgatada da janela pelos bombeiros. A criançada bateu palmas. Pouco depois ela foi levada pela ambulância para atendimento e a vida voltou ao normal na avenida de classe média naquele sábado. Nem quis saber do resultado do vôlei. Abracei minha família e conversei por muito tempo com as crianças sobre amor e respeito. Uma lição que, às vezes, a gente só lembra quando assiste a uma crise.
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